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Do Doce ao Salgado

Vale-tudo-ambiental

Foram necessários 7 dias, uma semana inteirinha, para que a presidente do Brasil resolvesse dar uma olhadinha na maior tragédia ambiental que nunca-antes-na-história o país vivenciou. Uma atenção distanciada no espaço-tempo (para não dizer descaso, omissão…); uma semana depois e milhares de metros acima, lá do alto do helicóptero oficial, como se a altura e o delay a protegessem do mar de lama.

Diante de tamanha inércia, não surpreende que o oportunismo promova seus heróis.

No momento em que as manchetes anunciavam a morte do Rio Doce, eis que surge o paladino do meio ambiente com uma milagrosa fórmula de recuperação do rio morto. Da lama podre que encobriu suas terras, Sebastião Salgado brota como porta-voz de sua patrocinadora VALE. E a mídia se regozija. A retórica (sempre) oportunista do “maior “fotógrafo brasileiro é um prato cheio para que se possa, mais uma vez, blindar a negligência das empresas responsáveis e a vista grossa das autoridades.

Frente a um crime ambiental sem culpados e à apatia política, Salgado desengaveta um projeto insosso aprovado pelo BNDES, mas parado, segundo ele, por restrição orçamentária. Vamos do Doce ao Salgado e temos, então, a única medida apresentada para o mar de lama. Única e, não por isso, extremamente conveniente para todos os envolvidos nesse conluio do finado rio; que, apesar de morto, segue seu curso, amplificando os impactos do capital sobre o meio ambiente. E a população atingida também segue, no curso do rio, sua peleja; sem água, sem perspectivas, sem futuro. Com Vale, mas sem Rio.

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Enquanto revirava meus arquivos, encontrei um texto que escrevi como exercício para curso do maravilhoso F/508., realizado no ano passado.

Depois de longa hibernação, resolvi atualizar o blog com ele.

O original você encontra aqui.

 

No subterrâneo

Pés descalços na areia.
O mar gingando por efeito da brisa. E a maresia como doce preguento impregnando a pele.
Solidão. Completude. Calmaria.
Amplidão.
Respirar é fácil.
Lento.
Profundo.

Mergulho no sonho enquanto o corpo, levado pelas escadas, rolante, mergulha nas profundezas da terra cavada, em camadas.
Ar rarefeito. Apressado. Automatizado. Suspiro superficial. Artificial. Como a luz que ilumina. Mais intensa e irreal à medida que as escadas avançam para o interior. E as paredes se comprimem, oprimem, afunilam. Os corpos se amontoam contrariados. Contato compulsório.
O ar quente das respirações foge da rajada de vento vinda do fim do túnel. É o trem que vem. E vai pelo mesmo caminho. Para o mesmo destino.
Quisera sair dos trilhos, dos túneis. E ver a luz do dia. Sentir a brisa fresca da beira do mar.
Já é outro dia. Como ontem. Rotina. O corredor que guia para o mesmo lugar. E para onde, por onde, sempre volto.

Me desvencilho da massa de corpos que seguem descompassados na mesma direção. Corro para fora. Para cima. Desconheço a saída. Mas me alimento da esperança de que alguma daquelas portas seja passagem para longe. Bem longe. Onde meus pés encontrem areia e meu rosto encontre o frescor do oceano. Que meu corpo encontre a paz que eu encontrei em pensamentos.
No subterrâneo.

 

tarou

 

Ir às ruas por ir às ruas não é acordar. Independente do número de pessoas. É preciso ocuparmos estes espaços, reagirmos dentro deles, levarmos discussões pontuais — como era a proposta do MPL — e resistir aos desvios que acontecem porque o Estabelecimento prioriza quem não precisa daquelas demandas. Há de se discernir pessoas aliadas de pessoas que não se importam. Marchar pode ser romântico, mas não é radical. Um milhão de pessoas sem nada a dizer, sem privilégios a questionar, sem questionamentos a fazer, sem patrimônios a quebrar, sem tópicos a discutir, não é uma multidão acordada. É, no máximo, um gigantesco episódio de sonambulismo político.

Incandescência

Não gosto de ordem, seja ela emanada das palavras ou de um conceito. A “ordem” dos protestos deste 17 de junho – tão elogiada pela presidenta Dilma e pelos setores conservadores da sociedade, especialmente pela mídia- só faz desqualificar a indignação social e a importância do movimento.

Uma coisa que tem me preocupado muito nestes atos (pelo menos aqui em Brasília) é o ufanismo, o nacionalismo expressado pela juventude que tem demonstrado rebeldia, pouca crítica ou noção política de internacionalismo ou solidariedade de classe ou global. A cada 5 palavras de ordem se canta entusiasticamente o hino nacional, o que me parece demonstração de um vácuo de formação política. Diego Mendonça

Também me incomodou profundamente o grito de ordem “Acorda Brasil”, bastante difundido nas redes sociais; dando a ideia de que “o gigante desperta” somente hoje, agora… minimizando toda uma trajetória de lutas bravamente encampadas por diversos movimentos, partidos políticos e setores da sociedade desde que o Brasil é Brasil.

Não! Não sou contra manifestações. Pelo contrário! E, não! Não falo de São Paulo. Caso contrário, a essa hora, não estaria em casa escrevendo este texto, mas nas ruas.

Falo de Brasília e da azedinha Marcha do Vinagre.

Que fique claro! Defendo a legitimidade de manifestações. Adoro fazer parte delas. O que houve em Brasília nessa segunda-feira foi válido. Porém, crítica construtiva não faz mal a ninguém.

Pelo que marcham?

 http://cafecomnata.files.wordpress.com/2013/06/slavoj.jpg

Quando finalmente soube da Marcha do Vinagre, confesso que fiquei aliviada ao perceber que havia recebido “convite” somente para as manifestações em Sampa, mas não para esta de Brasóila. E confesso que fiquei encafifada com a descrição do movimento e com o leque (disperso) de reivindicações.

– INVESTIMENTO NO TRANSPORTE PUBLICO – Manutenção das tarifas de ônibus em SP e no DF – OBRA DO VLT, METRÔ INCOMPLETO –COM TRANSPARÊNCIA;
– APOIO À MARCHA DA CORRUPÇÃO;
– Não aprovação da PEC/37;
– Não aprovação do PL 728/2011 que define terrorismo;
– CONTRA VIOLÊNCIA GRATUITA – de policiais, manifestantes, não à violência verbal também;
– Investigação do TCDF e do MP e responsabilização pelas obras do Estádio bilionário;
– Contrapartida de investimento da infraestrutura da COPA – Contra a maquiagem da Copa a favor do legado;
– Luta contra a remoção das famílias das áreas de interesse econômico em nome da Copa
– Saúde E educação de qualidade – problemas crônicos;”

As pautas do movimento extraídas do “evento do Feicibruiki”. Grifos originais).

Procurei e não encontrei uma adesão prévia (ao menos, não publicizada) ao ato por parte de colegas atuantes e figurinhas da militância local. O que me chamou a atenção. A Marcha do Vinagre, aparentemente, seria composta por um grupo heterogêneo e, desconfiava, debutante em matéria de protestos.

Oba! O Gigante despertou!

Era engraçado ver pessoas que nunca imaginei em protestos carimbar suas redes sociais com aquele “EU FUI” típico de grandes shows, bradar que saíssem do torpor (Acorda, Brasil!) e ganhassem as ruas.

A gente se acostuma, mas não devia”. E que coisa mais linda ver milhares saindo dessa inércia e ganhar as ruas, o Congresso! Afinal, temos tantos problemas e tantas questões que precisam ser vistas e revistas, especialmente neste momento em que os olhos do mundo se voltam para nosso país.

“Mas não sei se é uma boa estratégia essa de sair esbravejando com objetivos tão genéricos e dispersos. Claro que tudo está relacionado, mas precisamos começar por algum lugar” (replicando o Leo Germani).

Da mesma forma que precisamos de um Norte para nos localizar, precisamos de foco para lutar. A generalização de pautas só tende a manter marginalizado o que sempre ficou à margem. A indefinição gera vulnerabilidades e incertezas.

A presença de reacionários em manifestações me faz arrepiar. Mas, é aquilo, né?!… Todos têm o direito de se manifestar e mostrar indignação. O problema é quando o vinagre é promovido à vinagrete e a mistureba maquia a identificação de todos os ingredientes.

Ei, reaça! Vaza dessa Marcha!

Quando existe aderência massificada da população, e esta população não se politizou ainda, ela infla o protesto com discursos ideológicos. Ela enche o protesto de muito pacifismo, muitas reivindicações vazias (contra a corrupção! pela educação!), de bandeiras de Brasil beirando o nacionalismo de cantarmos o hino nacional, e, principalmente, de discursos opressivos, que se já entre as pessoas “politizadas” são sempre prevalentes, entre pessoas que não se politizaram são ainda mais. O machismo, o racismo, o heterossexismo e o discurso higienista burguês são alguns problemas que cada vez mais aparecem relatos de estarem surgindo nestas manifestações recentes, inclusive nos cartazes que estamos segurando e nos gritos que estamos bradando.

Mais da Incandescência

Esse sentimento dicotômico em relação à passeada foi brilhantemente expresso no depoimento do Marcelo Caetano, militante feminista que admiro bastante.

como boa parte dos amigos, ainda não sei bem o que sentir. tem um monte de coisa misturada.
a sensação de ser parte de algo que não se repetirá; a alegria besta de dar uma cambalhota no teto do congresso (!!!); o arrepio de ver uma multidão clamando por um poder popular.
ao mesmo tempo, vi ao meu lado pessoas com quem não compartilho um projeto de sociedade; pessoas machistas, homofóbicas; pessoas que não sonham com o mesmo mundo que eu.
mas foi incrível, incrível. aquela gente, aquela multidão. foi incrível. e foi lindo!
mas não sei…como o amor, a revolução também começa sem que saibamos como acabará.

(Retirado no perfil pessoal do Facebook)

Marcelo disse tudo!

Aonde vamos/queremos chegar?

O mais interessante dessa onda de protesto é que o levante é indecifrável para a política tradicional, para a maior parte da imprensa idem. (…) O caroneiro mal sabe aonde pode ir o bonde da história quando se solta nas ruas uma legião de ânimos e sambas exaltações às mudanças –mesmo que não se saiba quais mudanças agora, pouco importa, que se mude o estadão das coisas, como diria Wim Wenders. Xico Sá

É inquestionável o impacto e a importância de todas as manifestações que ocorreram Brasil à fora no início dessa semana. Questionável (e repreensível) é todo o contexto gerador dessa insatisfação generalizada, é a truculência das ações por parte das autoridades e a expulsão de manifestantes filiados à partidos políticos dos protestos.

Por outro lado, é interessantíssimo ver pipocar por todas as partes atos de proporções gigantescas que são autogestionados. No porgrama Roda Viva, o Movimento Passe Livre defendeu brilhantemente, dentre vários pontos, a horizontalidade como forma de efetivar mudanças.

A autoridade degrada o governante e o governado; nenhuma forma de autoridade é isenta, mesmo a democracia significa, simplesmente, a agressão do povo pelo povo, para o povo.

Woodcock, George. História das ideias e movimentos anarquistas. Vol. 2. página, 266.

No que tange o debate sobre o Passe Livre em São Paulo, acredito estarmos presenciando a eficácia de um módulo horizontal e autogestionável como instrumento de mudança. E, com toda mudança vem a incerteza. Será que essas mudanças irão se consolidar? Minha única certeza, perdoem o lugar comum, é que tanto ônus quanto bônus serão bem maiores que 20 centavos.

A máscara

“O clown encarna os traços da criatura fantástica, que exprime o lado irracional do homem, a parte do instinto, o rebelde a contestar a ordem superior que há em cada um de nós.

É uma caricatura do homem como animal e criança, como enganado e enganador. É um espelho em que o homem se reflete de maneira grotesca, deformada, e vê a sua imagem torpe. É a sombra”.  Federico Fellini

Acho que foi com Fellini (ou talvez Buster Keaton) que compreendi: quanto mais estraçalhada estiver a alma d@ palhaç@, mais divertid@ el@ será.
Me parece ser a máxima de vári@s artistas que se alimentam da dor para criar; dos cacos para construir.

***

Neste carnaval fui palhaça.
Convinham meus trajes pretos, inversamente proporcionais às cores daquela festa.

Naquela tarde, o bloco embalava os foliões com irreverentes marchinhas. O carro de som ganhava as ruas e mais adeptos. E os adeptos ganhavam as ruas para si.

Foi instintivo. Legítima defesa.
Pus a máscara. Deus ex machina.

A cada passo ia moldando a personagem. Seu andar, seus gestos, suas expressões… a avenida era minha ribalta. E desfilava por ela. Irreverente como a marchinha. Melancólica como a fantasia.

Distribuía e colecionava beijos. Fugazes.
Preenchia o vazio com o fugidio.
E na efemeridade de meu intento, buscava mais, e mais.
Cortejava o cortejo de libertinos. Seguía-os como seguiam religiosamente aquela procissão profana.
Queria que me vissem invisível.
Queria enxergá-los com os olhos da criatura; caricatura; que vissem seu exagero estampado em minha máscara exagerada.
Queria exaltar o ridículo e o belo de tudo aquilo. Profanando e santificando. Transgredindo a transgressão.
Assim como @s palhaç@s de verdade o fazem.
E, assim como estes, recolhi muitos sorrisos e algumas gargalhadas. Aplausos e elogios.
Também indiferença. Desconfiança. Até violência; Transferência, Freud explica.

O carro de som virou a esquina. Alguns ainda dançavam contagiados pelos ecos da música subitamente suspensa. O bloco ocupava o vazio. E o potencializava.

Buscando a completude, peregrinava de bloco em bloco.
Em vão.

O carnaval acabou.
E ainda não me despi da personagem.

***

Máscara

Avante Vadias!

Eis que João entra no açougue.

Há dias ele tinha o desejo irrepreensível de comer umas coxas bem suculentas…

  • Dia, seu Manoel!
  • Dia, João! O que vai ser desta vez?
  • Queria um belo par de coxas. Tens?
  • Claro!
  • Ihhh… a coxa hoje tá meio mirradinha… E cara, seu Manoel! Não pretendia gastar tanto…
  • Que tal peito?!?! Estão na promoção!
  • Mas seu Manoel! Olha o tanto de silicone!!!
  • É que não fazem mais mulheres como antigamente, João…

……………………………

Sempre me chamou a atenção essa antropofagia simbólica da mulher.

No sexo, a mulher não come o homem. É comida. Ela é gostosa… “delícia, delícia… ai se eu te pego”… “minha caça… te levo pro meu abatedouro”…

Quase um canibalismo gourmet!

……………………………

Para mim, o problema é quando, dentro dessa concepcão de coisificação da mulher, pequenos atos de violência são justificados ao se transferir a culpa do algoz à vítima.

  • Hummm… olha aquele “decote”;
  • Ai mini-saia!
  • Blusinha transparente, hein?!
  • Vestida desse jeito, quem resiste?!

E é contra essa ideia torpe – que pode gerar consequências ainda mais nefastas – que centenas de mulheres em todo o país se organizaram para realizar um evento de caráter nacional nas principais capitais brasileiras. Sobre a Marcha das Vadias e todo o contexto do movimento no Brasil, altamente recomendo esse e esse – dois belíssimos e totalmente esclarecedores textos da Bianca Cardoso. Leitura obrigatória e imperdível! 

Originada no Canadá, em 2011, em protesto ao comentário infeliz de um policial que aconselhou às mulheres pararem de se vestir como “vadias” como forma de evitar a violência sexual, a Marcha das Vadias, neste ano, ganha um caráter mais político e de cunho feminista, fruto de uma mobilização que nasceu online e partiu para as ruas.

Como bem lembrou Lena Azevedo: “Coisas que causam o estupro: Não é bebida, andar só, nem usar roupa sexy. É o estuprador.”

Em uma análise de 80 países, o Brasil ocupa a sétima colocação com uma taxa de 4,4 homicídios para cada 100 mil mulheres. Com o agravante de que em 68,8% dos atendimentos a mulheres vítimas de violência, a agressão aconteceu na residência da vítima”.

Na Marcha brasileira deste ano está clara a ligação do evento às causas feministas e ao movimento feminista em si, o que, ao meu ver, fortalece e legitimiza a luta. O protesto está embasado nas demandas locais e houve um belo diálogo entre as organizações das capitais, que definiram uma data em comum: dia 26 de maio (Confira aqui o calendário da Marcha no país). Cada cidade conferiu sua própria identidade à mobilização.

” No DF, marchamos porque houve cerca de 684 inquéritos policiais em crimes de estupro – uma média de duas mulheres violentadas por dia (..) no Brasil, aproximadamente 15 mil mulheres são estupradas por ano”.

“Marchamos pelo direito ao aborto legal e seguro, porque não queremos Legislativo, Judiciário ou Executivo interferindo em nossos úteros para nos dizer que um aborto é pior que um estupro.”- Manifesto DF 2012

Mais um ano, mais uma marcha. E eu, novamente, infelizmente, não poderei sair às ruas. Mas, como diz Lulu Marilac “neste ano resolvi fazer algo diferente”; Aderi ao “ativismo de sofá” na esperança de que, assim como a Marcha, eu passe do online para as ruas.

Porém, deixo registrada minha adesão à luta e admiração pelas mulheres que, de uma forma ou de outra, estão na linha de frente por respeito e contra a violência.

Antes tarde…?

FINALMENTE! Depois de quase 8 anos de processo em trâmite no Supremo Tribunal Federal (STF), agora, as mulheres que carregam filhos anencéfalos no útero podem legalmente escolher se levam ou não a gravidez adiante.

Ontem (11/04/2012), enquanto acompanhava o “primeiro tempo” do julgamento (retomado nesta quinta-feira), tive um rápido flashback e me vi repetindo as mesmas sensações que tive em 2004. Naquela época eu era recém-contratada pela Radiobrás, hoje, EBC- Empresa Brasil de Comunicação. No dia da sessão do STF lá em 2004, me lembro de, sempre que possível, dar umas escapulidas do trabalho e correr para a frente da TV na redação da Agência Brasil e acompanhar os votos dos ministros. Era o primeiro mandato do Lula e o país ainda vivia em lua-de-mel com o “novo” governo. Ao ver quanta coisa aconteceu nesses anos todos, vejo, portanto, o quanto esse processo se arrastou e sinto um aperto no peito ao pensar em quantas mulheres foram penalizadas por essa demora.

Não sou militante ativa, não sou ligada a nenhuma organização de defesa dos direitos da mulher, não conheço quem tenha vivido, muito menos vivi a realidade em julgamento. Mas sou simpatizante, talvez “por instinto”, da causa. No julgamento de ontem era um voto, um suspiro.

Porém, para mim, a decisão favorável chega atrasada. Conquistada após o sofrimento de muitas pessoas (mães, pais, irmãos, avós e tios dos bebês anencéfalos), não consigo vê-la como uma Grande Vitória (levando em conta aquele jargão: vencemos uma batalha, mas não a Guerra). É um passo importantíssimo, mas ainda há muito o que fazer para se conquistar o direito à vida e à dignidade da pessoa humana no Brasil.

Não consigo comemorar a decisão de hoje desprovida de críticas e pesar. Quanto tempo se levou para julgar uma ação que preenchia todos os requisitos legais no que tange a Constituição e as normas penais? Quanta influência religiosa ainda paira sobre as decisões de Estado e quanto lobby de entidades retrógradas e conservadoras ainda trava processos que deveriam fluir “democraticamente”? Quantas mulheres foram forçadas (e portanto torturadas) a carregar um condenado à morte em seus ventres, sofrendo sérios riscos/traumas psíquicos e físicos? Qual a dificuldade de se garantir o direito à vida? Sim, à vida! Ao contrário do que os radicais conservadores pregam, direito à vida não é apenas existir. O ministro Marco Aurélio Mello disse bem (sim, vou linkar a Veja :/): “O Código Civil prevê o direito do nascituro, ou seja, daquele que nasceu respirando por esforço próprio. Enquanto o feto está ligado ao cordão umbilical, a responsabilidade é da mulher que o carrega”. Um indivíduo, por lei, é um ser que existe por si só, e não por meio de aparelhos ou de um cordão umbilical. Afinal, se não há aparelho, humano ou máquina, aquele ser vivo não vive e não existe. O direito à vida é o direito de ser um indivíduo com saúde física e mental, um indivíduo que viva com dignidade e possibilidades de escolha que garantam justamente esses princípios. E é nisso que me pauto quando falo de direito da mulher: o direito sobre Sua vida.

O grande tabu que atravancou o processo sobre os anencéfalos no SFT foi o medo de se abrir precedentes para a descriminalização do aborto. Medo este real e, espero, imediato. Já passou da hora de o Brasil e seus brasileiros entenderem que somos um Estado Laico e lidar com as questões efetivamente dentro deste paradigma.

E, em nome de Allah, digo amém para a (demorada, porém justa) decisão do STF e, com o sangue de Jesus, que ela dê espaço para se discutir a garantia dos direitos da pessoa humana sem a intervenção religiosa. Oremos pelo Estado Democrático de Direito. Mazel tov!

Vale a pena ler para saber mais:

Entrevista da Debora Diniz

Os posts da feminista Bianca Cardoso

Os posts das Blogueiras Feministas

Um fantasma ronda nossa rota- o fantasma do eufemismo. Todos os especialistas em marketing e promoção pessoal unem-se para conjurá-lo. Quem nunca foi orientado a usar expressões como “estou num intervalo entre um trabalho e outro” ou “estou num período de transição”, “de introspecção”, “de definição do futuro profissional”? “Férias por tempo indeterminado”, “ano sabático”, “aposentadoria precoce”, “dando um tempo da rotina”, “tocando um projeto pessoal”, “vivendo de freelas”, “desestressando”?

Ora, ora!

Reza!

Exorciza o espírito (de porco) do eufemismo!

É tempo de os desempregados exporem ao mundo seu modo de ver, falar, beber, dormir, comer…

Com este fim, reuniram-se num boteco pé sujo bem próximo as suas casas (para economizar na condução e queimar na cachaça) desempregados de várias modalidades (demitidos sem justa causa, com ótima causa, rebeldes com e sem causa, colegas de férias coletivas e fanfarrões que chutaram o pau da barraca) e redigiram o seguinte manifesto, publicado em vários guardanapos de papel afanados desse mesmo estabelecimento e escritos com carvão do cara do churrasquinho de gato da esquina.

Orêia Revolution!

A história de todas as empresas tem sido a história da eterna luta de classes; a classe do patrão versus a classe do empregado, do temporário, celetista, freelancer, terceirizado… em duas palavras: cabeça e orêia [Esclarecemos o papel da cabeça como responsável pelos constantes tapas no pé das orêia].

Frente a tão triste contexto, surgiu, na década de 30, nos Estados Unidos, um grupo de orêias latejantes que decidiu aplicar pescoções às cabeças. O movimento perdeu força depois que várias cabeças multietnicas se uniram para exterminá-lo, mas retomou seus trabalhos em meados de 2008. Com força total e em boa parte do mundo! No Brasil a aderência ao movimento tiosamzista vem cambaleando graças a um grupo de resistência autointitulado “marolinhas progressistas”.

O Orêia Revolution é, portanto, uma série de medidas propostas afim de legitimar o legítimo movimento pró-desemprego, honrando seus membros, nobres desassalariados frequentemente infamados pela pecha infamante de “desocupados”.

Dito isso, clamamos por:

  • Abolição do eufemismo e consequente reconhecimento e aceitação total-universal do “desemprego” como única e justa designação.

  • Livre uso do status “ocupado”. (Não! Não podemos levar a vovó ao Kung Fu! Sim! Podemos estar “ocupados” e “ausentes” mesmo sem emprego! “Desocupado” de cu é rola!)

  • Extinção da conta rachada igualmente. (Amigos, amigos, negócios à parte. Não pagaremos pelos seus bons drink. E, para o desempregado, 10% é facultativo e faz falta!)

  • Confisco de todo o jornal e não apenas dos classificados. (Desempregado não é analfabeto nem alienado! Pelo direito a acompanhar o Brasileirão, a política nacional, o horóscopo e o spoiler das novela da Grobo!)

  • Imediata aplicação do Cadastro Nacional dos Desempregados no Sistema Venda Fiado. Livre adesão, cadastro e carteirinha gratuitos aos filiados.

  • Instituição do Dia Nacional do Orgulho Desempregado. (Se os héteros têm, nós tamém!)

(AVISO: Qualquer semelhança com outro famoso manifesto é plágio e falta de criatividade de seus autores. Afinal, se fossem criativos e visionários, estariam todos abraçados e abençoados pelo Pai Google…)

Danielle Almeida Pereira – orgulha-se em autointitular-se a si mesma “feliz desempregada”. Motivo este que a alçou ao posto de militante primeira na luta contra o eufemismo. Já disse ao mundo que era jornalista, mas hoje busca esconder o fato. Fez curso de atacante e graduou-se em chutar o pau da barraca. Alforriada, clamou querer ser fotógrafa quando crescer. O resultado está aqui (miradas.com.br). Entra aê e me ajuda a ganhar page views, ti@!?

Mussum me entendis