O musical Chicago é um dos melhores filmes hollywoodianos que já vi. Uma das cenas (dentre tantas) que eu adoro é aquela em que o advogado Billy Flint (interpretado brilhantemente por Richard Gere) manipula fantoches/jornalistas e consegue que eles publiquem somente “sua versão” dos fatos. Versão, esta, criada maquiavelicamente.
Penso logo nesta cena toda vez que vejo o circo da imprensa colocar sob os holofotes mais uma CPI aberta no Congresso Nacional após denúncias bombástica estampadas nas capas de Veja, Isto É, Época e Cia. Mesmo que a história de Chicago se passe na década de trinta nos Estados Unidos de Al Capone, a comparação não poderia ser mais atual e adequada ao contexto da mídia brasileira.
A única diferença reside no fato de que, na nossa história, fica meio difícil saber quem é o titereiro e quem é a marionete…
Mas a história está prestes a mudar. Após anos de trabalhos hercúleos e inúmeras “matérias” (Isentas? Relevantes? Éticas?), a revista Veja conseguiu seu maior triunfo: Coroou sua campanha de criminalização do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) com a criação de uma CPI para julgar as “irregularidades” do movimento.
Lamentável o desserviço dessa publicação da família Civita, dona do grupo Abril, que usa de seu poder na massa para garantir seus interesses econômicos.
Mais lamentável ainda é saber que o poder do agronegócio pode ser responsável por um possível momento histórico e inédito no Congresso. Ao contrário do final conhecido por todo o público, aposto que a CPI do MST vai contrariar as tendências e será a única que não acabará em pizza.
O ápice da campanha da Veja foi o incidente das Laranjas destruídas por integrantes do movimento. Eu só soube do ocorrido depois e, ao buscar imagens no YouTube, “banditismo do MST”, “vandalismo” e “vagabundos do MST” que “destroem fazenda PRODUTIVA” já ditavam o tom da massa.
O episódio das Laranjas me faz lembrar aquela anedota da época do George W. Bush e sua guerra contra o “terror”…:
Dick Cheney vai avisar o Júnior de um incidente com civis… “Presidente, bombardeamos um prédio civil. 800 mulçumanos morreram e uma galinha”.
Ao que Juninho pergunta: “Mas porque uma galinha???”.
Cheney: “Viu, senhor?!?! Ninguém liga para os 800 mulçumanos!”.
A sociedade brasileira achou inadmissível a “destruição” de pés de laranjas de uma empresa privada, grande exportadora, que planta em terra PÚBLICA. A grilagem é irrelevante frente ao “assassinato” de árvores.
No entanto, essa mesma sociedade não recebe com tamanha indignação e comoção a destruição de barracos de moradores pobres que ocupam terras públicas.
Pessoas desalojadas, favelados, ah… para esses, a “justiça” agiu certo ao pedir a reintegração de posse. Afinal, eles podem viver na periferia. Porque querem insistir em morar no centro da cidade?!!?
Você já ouviu falar no caso da desocupação da Favela Real Parque? Concordaria com a reivindicação dos moradores?
Chumbo neles! Fogo nus barracu tudo!
A inversão de valores já é inerente à nossa sociedade. Mas até que ponto a falta de informação ou a informação manipulada nos impede de agir com maior discernimento?
Portanto, trago aqui uma série de links que mostram o ponto de vista do MST e dos defensores do movimento (e meu também).
Este (nota do MST),
este (Stédile em entrevista à Folha),
este (sobre cartel das laranjas),
leia este,
ainda este,
e mais este.
Meu receio é de que a mentalidade brasileira e a lógica capitalista incorram na mesma injustiça retratada na história do grande Machado de Assis:
“Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas”.
Ou seriam, as laranjas?










Você me fez lembrar um filme gaúcho, infelizmente, esqueço nomes o tempo inteiro, mas o cara é bom e o filme se chama “O homem que copiava”. É que há uma cena de assassinato premeditado onde os autores colocam uma galinha só pra atrapalhar a investigação policial.
Mas, sobre o fato da empresa cultivar laranjas em terras públicas eu só soube através de você, e repare que eu não leio “Veja” desde a experiência de termos eleito Fernando Collor. Tenho até hoje o nº de “Veja” onde ela destaca este ser numa foto feita de baixo pra cima (você sabe o porque disso), numa pose dinâmica, de força, e com o título “o caçador de marajás”, termo usado na época pra uns caras que ganhavam muito, mas muito salário no serviço público…
Eu, enquanto leitor ávido por informações, em um momento como o atual em que a informação está em quaquer canto (só nos falta encontrar informação em pedaços de papel higiênico), não consigo ser seletivo para obter a informação mais correta, ou será que isso não existe? Ou não me é permitido isso, só para alguns inciados na saga de desvendar nas linhas, entrelinhas, diagonais de texto, nas respirações dos entrevistados, sei lá onde mais, isso de saber alguma verdade, ou algo semelhante à verdade?
Eu juro que tento. Tá! Tudo bem que não tenho paciência de assistir aos programas de entrevistas em que aparecem pessoas com caras de repolho cozido inteiro, ou aqueles programas jornalísticos onde aparecem, além do apresentador com as notícias que ele le, tooooodas aquelas letras que rodam, correm, aparecem fixas, trocam, mudam. Eu fico maluquinho com aquilo. Esse tipo de coisa estressa qualquer um.
Enfim. A partir de hoje procurarei a informação correta no seu blog. hahahahahaha
Veja a responsa!!!
Beijos.
Super esse seu comentário, Pardal! Agradeço imensamente o elogio! Mas que fique claro que eu não tenho a “informação correta”… :p
Até mesmo pq esse Blog não passa de devaneio altamente (des)propositado…. ou seja, minha opinião. Claro, com o cuidado jornalístico de me embasar em fontes e DADOS, coisa que muitos, lamentavelmente, se esquecem. E/ou, principalmente, com o cuidado de não manipular esses dados.
Você levantou uma questão interessantíssima sobre a variedade e quantidade das informações hoje em dia. Essa diversidade é ótima! Plural! Democrática. às vezes, de fato, é difícil ter certeza de que a informação é “segura”, mas nada melhor do que mostrar-se, ser transparente para tentar conquistar essa “credibilidade” com os interlocutores. O lado positivo da comunicação hoje é que ela é mais ABERTA. Não deve existir isso de “verdade absoluta”, mas de ponto de vista, passível de críticas, sugestões… DIÁLOGO!
Ao mostrar as várias facetas de uma “realidade”, chegamos mais perto dessa informação, se não “correta”, ao menos, justa!
E o diretor do Homem que copiava é o GENIAL Jorge Furtado. Um dos meus filmes favoritos é o Ilha das Flores- http://www.youtube.com/watch?v=Zfo4Uyf5sgg&feature=related! SENSACIONAL. E “O dia em que Dorival encarou a guarda”- http://www.youtube.com/watch?v=XC0Db_N9Ruo. Seu último longa (ou penúltimo) Saneamento Básico também é excelente. Divertido e inteligente!
Mais uma vez, valeu, Pardal!
Vou tentar fazer valer a responsa
:p