
Mocinha só no nome. Pois esse é o único vestígio de juventude nessa senhora de, provavelmente, 60 anos (não pergunto pois é indelicado, especialmente entre mulheres).
Dona mocinha é a única moradora e, portanto, “dona” da Ilha do Livramento, um pedaço de terra ao lado de Alcântara, no Maranhão.
Em uma casa que busca parecer um quiosque de praia, dona Mocinha recebe os escassos turistas que se aventuram pela região. Ela conta com orgulho que pretende desenvolver um pólo de eco turismo na ilha. Seu treinamento para tal empreitada é acolher os aventureiros e oferecer-lhes um almoço caseiro, água, cerveja, refrigerante e, no meu caso, água de coco direto do pé (segundo a senhora, seu grande diferencial).
Dona Mocinha vive junto de seu filho de criação. Ela se vangloria de tê-lo tirado das drogas e dar-lhe vida nova. E diz que é por isso que ele o considera sua mãe. A senhora também garante que teve papel decisivo na vida de muitas moças no Rio de Janeiro e enfatiza um sotaque carioca ao falar sobre seux 25 anox no Rio. Diz que foi a “salvadora” de muitas garotas de programa que sonhavam em casar com gringos. Sua função seria, portanto, o de casamenteira, ao permitir que as moças fingissem ser vendedoras na loja que administrava. Ela relata que viajou “o mundo”! Suíça, Espanha, Inglaterra, tudo por conta dos casamentos que arranjou. Huummm-hummm!
A praia, apesar de quase deserta, não atrai pela beleza, mas sim pela proximidade com o município de Alcântara. O mar é cor de água barrenta e sua areia dá lugar à argila do mangue. Chegar ao local é a aventura. Não há transportes “credenciados”, mas sim canoas de pescadores e/ou moradores que saem ao mar para colher o almoço ou janta. Entrei em uma delas. O preço: R$ 1. No meio do caminho fizemos uma troca de embarcações e, me equilibrando para não cair n´água, pulei para uma canoa e me deparei com uma cesta enorme cheia de camarões! No caminho uma ótima surpresa: botos! Desembarquei em pleno mangue disfarçado de areia de praia. Pisar na argila molhada foi divertido até que a dita cuja se transformou em areia movediça e atolar até o joelho foi a única coisa que consegui alcançar. Após ser resgatada (e desatolada) por uns garotos nativos/pescadores segui desbravando a ilha. Em toda a extensão da praia, paus para rede de pesca. Inúmeros peixinhos que mais parecem lagartas (ou cobras) saltitam pela superfície da água. Caranguejos e siris se enfiam na areia a todo instante.
De repente, três cães latindo feito doidos avançam nos garotos/pescadores que corriam em frente. Eis que surge, como nos filmes, uma figura imponente de roupas surradas e cabelo grisalho, berrando ordens vãs aos cães assassinos.
Não acredito no potencial turístico do local, apesar da defesa apaixonada de dona Mocinha. E, pra ser sincera, torço para que seja este apenas um devaneio altamente despropositado dessa senhora. Que a ilha do Livramento continue quase deserta, a não ser por sua excêntrica moradora e seus freqüentes visitantes: a população de Alcântara, que encontra ali um local de descanso, de diversão e de fartura. Ambiente que garante diversão e comida na mesa.









