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Finalmente, no final do ano passado, a mídía prestou-se ao serviço de divulgar a prática de atividades ilícitas do governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda. Em operação da Polícia Federal, o governador e sua trupe foram pegos no pulo.

Comemorei, pois não é de hoje, nem da época da Operação Caixa de Pandora, que ouço a respeito da corrupção no Governo Arruda. Lembrando que o político é cria de Joaquim Roriz (suspeito de ter ajudado nas denúncias contra seu concorrente nas próximas eleições) e reincidente em casos de ilegalidades, como no episódio da violação do painel do Senado, junto com o falecido ACM. Bem… “diga-me com quem andas”…

Na época das denúncias, cheguei a comentar por aqui minha indignação frente à lentidão em se divulgar as ingerências do GDF.

No entanto, resolvi tentar discutir as consequências de tal ato sob uma outra ótica. Fiz uma reportagem publicada na 365 edição do jornal Brasil de Fato. E, na semana passada, veiculada na página do jornal na internet. Olha que feliz!!!

Só estou publicando o texto na íntegra aqui, em vez de incentivar a leitura no portal do Brasil de Fato, porque queria divulgar as fotos que fiz na comunidade junto com o texto (caso contrário usaria o flickr. O que pretendo fazer no futuro) :p

Segue a matéria:

Todos os dias Ana Paula Duarte sai de casa para buscar o pão e o leite das crianças. Dona-de-casa, casada e mãe de dois filhos – eram três, mas o caçula morreu há um mês –, ela comemora o leite e o pão distribuídos gratuitamente pelo governo local às famílias carentes. “Significa muita coisa. Para mim é uma alegria, porque tinha dia que eu não tinha nem dinheiro para comprar o pão dos meus filhos”.

Há três anos, Ana Paula mudou-se do Paranoá para Itapoã, uma das comunidades mais pobres do Distrito Federal. Ela poderia ter ganhado mais do que um simples pão neste fim de ano caso as alegações do governador do DF, José Roberto Arruda (ex-DEM, agora sem partido), fossem reais. No final de novembro, a Polícia Federal desencadeou a operação Caixa de Pandora, que desmontou um esquema de corrupção e pagamento de propina a políticos da base aliada. Algumas das ações foram filmadas. Em um dos vídeos, Arruda foi flagrado recebendo R$ 50 mil. O dinheiro, segundo ele, seria destinado à compra de panetones para populações carentes do DF.

Se pudesse desejar algo para este natal, Ana Paula escolheria “felicidade e segurança”. “De panetone eu realmente não precisaria, não. Precisaria do pão e do leite se fosse o caso de ele [Arruda] tirar. A gente precisa muito desse pão e leite. Mas, panetone, sinceramente, não precisaria, não”, diz.

Para ela, o maior problema da cidade é a insegurança: “Se a gente quiser saúde ou segurança, tem que ir para o Paranoá”. “Agora mesmo acabou de matar um ali. Em plena luz do dia!”, contou.

Em Itapoã são realizados projetos e ações dentro do Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (Pronasci), do Ministério da Justiça. As parcerias com sociedade civil e o Governo do Distrito Federal têm o intuito de prevenir a violência e a criminalidade, especialmente entre jovens de 15 a 24 anos.

Assim como Ana Paula, a comerciante Regina Arruda também acredita que o principal problema do local seja a violência. O assassinato comentado por Ana Paula ocorreu em frente ao estabelecimento de Regina. De acordo com os moradores e com a Polícia, um rapaz de 23 anos, conhecido por Pará, foi morto no local. Ele era genro e ajudante de um dos maiores traficantes de Itapoã, Edson Ferreira de Mesquita, o Peixe, que também foi baleado na ocasião.

Regina conta que, quando escutou o tiroteio, fechou as portas do bar e correu para os fundos da casa, “porque é muito arriscado, né?! Meu único jeito é fechar”.

O ataque aos traficantes ocorreu no dia em que Itapoã comemorava um ano de lançamento do projeto Território de Paz, vinculado ao Pronasci. A parceria entre governo federal e GDF previa 28 ações de prevenção à violência, como instalação de câmeras de segurança, telecentros de inclusão digital e policiamento comunitário. Segundo informações do GDF, foram investidos cerca de R$ 43 milhões.

Neste fim de ano, Regina diz querer paz. Se tivesse de pedir algo às autoridades, de acordo com a comerciante, panetone não entraria na lista: “Graças a Deus eu trabalho e compro”. “Mais segurança, gente! A gente não precisa de pão, não”.

Relatividade e humanização

Apesar das necessidades serem parecidas, os desejos das comunidades são relativos. Essa é a opinião de Max Maciel, coordenador da Central Única das Favelas (Cufa) do DF. “Se a gente visitasse hoje uma comunidade que não tem asfalto, que sofre com a poeira e a lama, a primeira prioridade deles seria o asfalto, por mais que o problema identificado fosse o lixo, porque a cidade é suja. Mas eles iam querer o asfalto, porque a poeira atrapalha mais que o lixo. Primeiro você vai ter de dar o asfalto para depois discutir o lixo”.

Ele ressalta a importância de se trabalhar a humanização desses locais. “Não adianta só colocar asfalto, luz, isso é urbanização. Mas não garante a humanização dessas pessoas. Então a gente tem pessoas da cidade de Ceilândia que não se reconhecem moradores de Ceilândia, não querem morar na Ceilândia. Você tem moradores da cidade Estrutural que colocam no seu currículo outras cidades para não dizer que moram na Estrutural, com medo do preconceito. E isso é uma violência maior”, diz.

Na visão do coordenador da Cufa-DF, o ideal seria que essas cidades já surgissem como o novo bairro de classe alta de Brasília, o Noroeste: “com ciclovias, parque ecológico… por que não? Samambaia, que tem 18 anos, tem ruas sem asfalto há 18 anos. E nós temos bairros novos crescendo com toda a infraestrutura”.

Em meio à polêmica de construir uma área residencial em reserva ambiental e indígena, o GDF conseguiu destravar os processos e, somente neste ano, a Companhia Imobiliária de Brasília (Terracap) realizou quatro licitações de terrenos do Noroeste. Ao todo, as vendas deste ano já acumulam mais de R$ 1 bilhão. O vice-governador do DF, Paulo Octavio, também envolvido nos escândalos, é o dono da maior imobiliária da capital.

Dicotomia

Cerca de 20 quilômetros separam Itapoã do Plano Piloto. Para se sair de um lado ao outro há dois caminhos, ambos passando pelas regiões nobres do DF: o Lago Norte e o Lago Sul.

Há uns 5 minutos de Itapoã, o setor de Mansões do Lago Norte e o Lago Paranoá acompanham a estrada. Já para aqueles que optam pela via do Lago Sul, é obrigatória a passagem pela Ponte JK, um empreendimento milionário, herança da era Joaquim Roriz, que governou o DF por 16 anos [de 1988 a 1990, de 1991 a 1995 e de 1999 a 2006) e marcou a região com seus loteamentos irregulares. Segundo a Secretaria de Obras do GDF, foram gastos R$ 182 milhões para construir o monumento.

Itapoã é fruto de invasões. Em 2001, famílias de outros estados e da cidade vizinha Paranoá deram início à ocupação das terras pertencentes à Aeronáutica, que pretendia instalar uma antena de controle aéreo para o DF. Segundo alguns moradores, muitos viam na região a possibilidade de fugir do aluguel que não podiam pagar (e ainda veem, pois a invasão mais recente no local não tem nem um ano). Quatro anos mais tarde, a área passou a ser a Região Administrativa XXVIII – Itapoã.

O Distrito Federal é dividido em regiões administrativas ligadas ao GDF. Algumas não são bem delimitadas. Para o coordenador da Cufa-DF, o fato de as cidades satélites não serem autônomas gera um problema, pois os impostos recolhidos nestas localidades não voltam necessariamente para elas. “Algumas cidades não conseguem se segurar sozinhas, porque nós não temos incentivo para as pessoas criarem uma empresa e gerarem emprego e renda em sua própria comunidade. Tudo o que é arrecadado no DF vai para o montante e não é dividido de forma igual”.

Coordenador da Cufa-Df, Max Maciel, explica a situação da população de baixa renda de Brasília

Max Maciel define como “apartação social” a situação no Distrito Federal e reclama da “dicotomia” em que vive a população: “O meu ônibus é diferente do ônibus daqui [plano piloto], o tratamento no meu posto de saúde é diferente do tratamento no posto de saúde daqui, a educação e as escolas públicas das nossas cidades são diferentes das escolas públicas daqui. Por quê? Porque não foi planejada no Entorno, não foi incorporada e até hoje não se sente incorporada. Nós somos iguais! É uma dicotomia”.

Hoje, Itapoã tem mais de 100 mil habitantes que vivem com uma renda familiar média de R$ 403.

Dados da Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan) mostram que metade da população não completou o primeiro grau e 18,7% das crianças menores de 7 anos estão fora das escolas.

A cidade não possui escola de nível médio. Para cursar o 2º grau, os alunos devem buscar as instituições do Paranoá e de outras regiões do DF. Em Itapoã, são duas escolas de ensino fundamental, sendo que a mais nova foi aberta há dois meses. Também só recentemente os estudantes receberam transporte escolar gratuito. A comunidade é a segunda no ranking de pior escolaridade, só perdendo para o Varjão (Região Administrativa XXIII).

Itapoã não tem delegacia, mas dois postos policiais; nem hospital, mas um posto e um centro de saúde.

Apesar de ser uma das áreas mais carentes do DF, seus moradores se mostram satisfeitos com a cidade. A dona-de-casa Ana Paula Duarte diz gostar muito do lugar onde vive. “Aqui é muito bom para mim, tirando a violência. Mas acho que todo lugar tem isso, né?!”, justifica.

Para a comerciante Regina Arruda, a insegurança não é motivo para buscar outro local. “A gente fica com medo, mas tem que sobreviver, né?! A única coisa que eu tenho é esse lote. Não dá para mudar daqui, porque hoje em dia a violência está em todo canto”, argumenta.

Ação eleitoreira

Pelos muros de Itapoã é possível encontrar mensagens de agradecimento ao governador Arruda e ao deputado distrital, Leonardo Prudente, presidente da Câmara Legislativa do DF e uma das “estrelas” do chamado Mensalão do DEM. As imagens veiculadas na mídia mostraram cenas pitorescas, como aquelas em que Prudente aparece escondendo dinheiro nas meias e, em outra filmagem, orando pela propina recebida.

Alguns moradores, que não quiseram se identificar, contaram que, antes do escândalo envolvendo o GDF, a figura do deputado era bastante difundida na comunidade. Segundo contam, até os carros oficiais vinham com a fotografia do presidente da Câmara Distrital estampada na lataria.

De acordo com a Codeplan, 38,7% dos habitantes de Itapoã vivem com até um salário mínimo, valor 100 vezes inferior ao recebido por Arruda em apenas um dos flagrantes. “Não sei se algum dos senhores dessas comunidades conseguiria se imaginar com R$ 50 mil. Para eles seria como ganhar na loteria”, diz Max Maciel.

O coordenador da CUFA-DF defendeu a emancipação das cidades carentes como forma de se combater a pobreza e condenou ações de “barganha” que, segundo ele, não garantem uma melhora na vida dessas populações. O coordenador disse, ainda, que a desculpa da distribuição de panetones nessas comunidades poderia se caracterizar como uma ação eleitoreira, mas não como uma ação social eficaz:

“Nenhum panetone mudaria o Natal de uma criança. O que mudaria o Natal de uma sociedade seria ela mesma poder comprar um panetone no final do mês. A elite criou as leis para se manter no poder, vai barganhar por panetone, por cesta básica. E não é isso que a gente quer. Panetone e cesta básica não é pra gente. Isso a gente quer ter o direito de comprar”.

O administrador regional de Itapoã, Marco Aurélio Demes, foi procurado pela reportagem e se recusou a dar entrevista.

Garimpando meus arquivos antigos, descobri três críticas de cinema que fiz para um guia cultural de Brasília, o Tablado, distribuído gratuitamente há anos em bares e restaurantes da capital. Os textos são bem antigos… os filmes já comemoraram vários aniversários… mas resolvi ressucitar o material aqui. Afinal, é sempre bom reciclar…

Não perca o final dessa emocionante saga que você acompanhou aqui e aqui.

Neste último episódio…:

O TOM DA GLOBALIZAÇÃO

Um Tom afinado; um Tom correto; um Tom harmônico; vários Toms que regem a melodia Hanks e asseguram que esta sinfonia seja um deleite para nossos olhos, ouvidos e coração. Não é somente seu cachê multimilionário que faz de Tom Hanks uma celebridade inquestionável. Toda a ingenuidade e doçura presentes no inesquecível Forrest Gump; ou toda a austeridade de seus personagens em filmes como O Resgate do Soldado Ryan e no belíssimo Estrada para a Perdição; toda a força de vontade e constância do advogado HIV positivo de Filadélfia (que rendeu ao ator seu primeiro Oscar); toda a maturidade de Chuck Noland, em Náufrago, neste que é o melhor trabalho do diretor Robert Zemeckis e de Hanks; toda a comicidade de seu personagem que deu vida a filmes como Matadores de Velhinhas e, um dos filmes da minha infância, Um dia a casa caiu; enfim, todas as características mais marcantes (e apaixonantes) deste “queridinho da América” transcendem sua pessoa e incidem direto nos personagens que interpreta.

Não poderia ser diferente com O Terminal. Nesta que é a terceira parceria de Hanks com o diretor Steven Spielberg, o carisma e a simpatia do ator caíram como uma luva no personagem Viktor Navorski; uma comunhão que já de imediato garante a diversão do filme. Mas não é só por causa de Tom/Navorski que a fita é interessante. Vale a pena enxergar O Terminal de Spielberg como um microcosmo do mundo globalizado (a começar pelas multinacionais espalhadas pelo cenário). O filme é uma concepção concreta do ideal abstrato de interação e inter-relacionamentos entre diferentes países, raças, cores, credos, ideologias. O Terminal é uma zona neutra e porta de entrada para um dos maiores e mais lucrativos mercados: os Estados Unidos. Isto na teoria, por que na prática, este espaço é controlado pela maior potência econômica do mundo, que funciona como um severo agente de alfândega, selecionando as nações de acordo com seu interesse. Uma visão crítica e realista da economia de mercado que surpreende, já que Spielberg, em suas comédias, geralmente se abstém de qualquer envolvimento político (ou maquia sua verve neoliberal?).

Outro ponto interessantíssimo é o panorama que o diretor traça dos diversos “Estados Unidos”, a começar pelo personagem de Stanley Tucci, Frank Dixon. Encarregado da segurança do aeroporto, Dixon personifica todo o pensamento republicano e conservador dos EUA. De uma sala no terminal munida de inúmeras câmeras de segurança, ele inspeciona cada canto do local. Sua atitude voyer explicita a paranóia norte-americana pós-atentados de 11/09. Da mesma forma que lhe concede poder supremo neste pequeno espaço e desencadeia atitudes protecionistas. Dixon se preocupa, a todo tempo, com sua promoção (um bom negócio) e está determinado a extirpar qualquer ameaça ao seu objetivo, no caso, Viktor Navorski. A princípio, o personagem de Tom Hanks é visto só como um problema menor que Tucci deseja delegar a outros, mostrando assim o descaso deste “tipo” de Estados Unidos em relação aos países ou continentes pobres. No momento em que Navorski caminha com seus próprios pés e ganha credibilidade suficiente para ingressar em “blocos econômicos”, Dixon inicia um embargo na tentativa de destruir a influência deste representante de um país comunista (referência a Cuba, talvez?!). O embargo de Dixon à Navorski possibilita o relacionamento deste último com funcionários do aeroporto. Um grupo que, a priori, se forma nos moldes da cooperação mútua típica de blocos econômicos encabeçados por países subdesenvolvidos.

A troca de favores (que depois se transforma em amizade) é o elo entre Navorski e o mexicano, interpretado por Diego Luna (E sua mãe também). Por comida, Navorski trabalha de cupido para o mexicano que deseja conquistar uma paixão americana (uma referência às aspirações mexicanas de consolidarem um relacionamento com os estados Unidos). Por meio de Luna, Hanks tem contato com um indiano temeroso que alimenta suspeitas tipicamente ocidentais em relação ao comunista; valores absorvidos durante os anos de permanência nos EUA. Há, neste clube, um norte-americano negro que representa os EUA marginal, ao contrário de outra “América negra” personificada pelo guarda que é o braço direito de Dixon, cujo contato com os EUA conservador o posiciona no grupo dos que aspiram status e ascensão social; uma “América negra” que se embranquece, mas que ainda preserva um censo de humanidade. A “América negra marginal” critica a forma como o negro de baixa renda é tratado em seu país de origem (país este que faz questão de diferenciar-se através da alcunha de “afro-americano”) e constata a razão da afinidade entre Navorski e este EUA pobre. Por fim, a bela Catherine Zeta-Jones personifica os “EUA democrata”. Sua personagem é uma típica norte-americana acostumada ao american-way-of-life e acredita piamente que o resto do mundo viva como ela. Zeta-Jones é uma comissária de bordo extremamente alienada e individualista, que não enxerga nem os avisos de “piso molhado” (como o resto dos norte-americanos). É condescendente frente à realidade de Navorski, mas fica só nisso. Sua ajuda (quando ocorre) é mais um descargo de consciência, e sua alienação a impede de se interessar pelas conseqüências de seus atos. Em sua mente, ela crê que foi responsável por todas as mudanças e pela resolução de qualquer problema, quando na verdade não o é.

Tom Hanks é, para muitos, um atestado de qualidade da produção. Mas neste caso, além de sua presença, a história baseada em fatos reais também fazem do filme de Spielberg uma boa pedida.

Garimpando meus arquivos antigos, descobri três críticas de cinema que fiz para um guia cultural de Brasília, o Tablado, distribuído gratuitamente há anos em bares e restaurantes da capital. Os textos são bem antigos… os filmes já comemoraram vários aniversários… mas resolvi ressucitar o material aqui. Afinal, é sempre bom reciclar…

Acompanhe mais uma capítulo dessa emocionante saga. A primeira parte você já leu:

(Uma observação inútil: Repararam a trilha do final? É a de Edward, Mãos de tesoura!)

UMA METÁFORA DO CINEMA

“Gosto não se discute”. Palmas para o senso comum! É verdade o que diz o provérbio; o gosto é algo pessoal e intransferível; por isso, absolutamente relativo. O meu gostar depende da minha bagagem de conhecimentos, de crenças, pensamentos e ideologias. Estes elementos também possibilitam a minha leitura de um objeto; leitura pessoal, relativa e intransferível. Cesso a teoria. Vamos à prática. Pessoalmente gostei de Peixe Grande e suas histórias maravilhosas, do diretor norte-americano Tim Burton.

Esse “Peixão” me fisgou em, primeiramente, dois aspectos: a fotografia e a atuação de seu protagonista. Sofri, por isso, um dèjá vú fílmico. Em A Lenda do cavaleiro sem cabeça, um dos filmes que mais aprecio de Tim Burton, foram também a fotografia e o ator principal que me chamaram a atenção. Nas duas obras, a fotografia conseguiu estabelecer o clima do filme. O aspecto enevoado garantiu um ar tétrico à lenda do morto-vivo, no primeiro. Já em Peixe Grande, a fotografia foi responsável por separar o mundo da imaginação do mundo real; enquanto naquele a claridade e o granulado da imagem lembravam-me flashbacks, no último, o tom azulado que cercava o filho descrente das fábulas do pai me remetia à triste e entediante realidade. Quanto à atuação, bem, Peixe Grande é protagonizado pelo escocês Ewan McGregor. McGregor dá um show; está simplesmente delicioso no papel de Ed Bloom jovem. Assim como Johnny Depp, cujas caras e bocas frente às vítimas do cavaleiro sem cabeça e frente ao próprio sanguinário mostravam que a fita estava mais para comédia e para o sarcasmo do que para o terror incutido em seu título.

Mas, volto ao gosto. Gosto que parte de minha leitura, por sua vez baseada em minha própria forma de ver o mundo. Confuso? Bem, decidi falar de Peixe Grande não só pela fotografia e atuação, mas pela história por trás da história. Essa grande anedota de pescador (pode ser uma leitura do título do filme, não?!), para mim, funcionou como uma metáfora do cinema. Expliquemos o enredo: Ed Bloom é um fantástico contador de histórias. Seu filho Will, no entanto, tem problemas em aceitá-las; menospreza o que acredita ser ingenuidade do pai. A desculpa de Ed para seus “causos” divertidos e muitas vezes hilário é a de que simplesmente a vida não é tão emocionante quanto nas fábulas. Seu objetivo é livrar Will da monotonia do cotidiano. Ed é uma espécie de Roberto Benigni do açucarado e melodramático A vida é bela. É aí que entra minha comparação. Ora, o cinema, em minha concepção, funciona como uma válvula de escape da realidade sufocante; uma forma de evasão da mesmice do dia-a-dia. Ed buscou isso para seu filho, e eu o busco para mim, através dessa forma de arte magnífica (e de outras também, como da literatura). Mergulhar num mundo de fantasia e ilusão; transferir-se para o outro lado da tela; identificar-se com as histórias e as personagens; entender nossa realidade através da crítica perspicaz; isso tudo faz parte da magia do cinema que encontra em Peixe Grande e suas histórias maravilhosas uma interessante metáfora. Mas essa é só a minha leitura.

Ps: Sempre acompanho os trabalhos do diretor Tim Burton. Mas, sua fixação com Jonnhy Depp e sua mulher, a atriz Helena Bonham Carter, já cruzou a fronteira do nepotismo e, em minha opinião, virou falta de criatividade. É tudo em família agora. Sim! É uma família talentosa e próspera. Mas, é bom variar de vez enquando… Mas não é por isso que vou deixar de conferir o trabalho desta máfia. Já estou com água na boca para conferir Alice no país das maravilhas. Pelo trailer, pareceu IMPECÁVEL.

Garimpando meus arquivos antigos, descobri três críticas de cinema que fiz para um guia cultural de Brasília, o Tablado, distribuído gratuitamente há anos em bares e restaurantes da capital. Os textos são bem antigos… os filmes já comemoraram vários aniversários… mas resolvi ressucitar o material aqui. Afinal, é sempre bom reciclar…

[PS: Deixo, assim:

a) meu protesto, oferecendo aos moradores da capital (e a todos os brasileiros), algo mais ameno que o veiculado na atual conjuntura política da cidade (Arruda foi tema que, inclusive, já tratei aqui);

b) e minha revolta! O cara é reincidente! Só agora a grande mídia resolveu "denunciar"?!?! Só pq é escândalo digno de ibope?! Há dois meses eu "tutei" isso. E é só acompanhar o Leandro Fortes, da Carta Capital, pra saber que Arruda bom- ao contrário do que disse Veja há meses-, só a planta...]

Segue a primeira da série:

UM DOCUMENTO DO BRASIL

Cinema e música se unem para mostrar as várias facetas brasileiras

Falam eles que o cinema nacional está em ótima fase. Fala você que nunca se viu tanto filme brasileiro em cartaz; e tanto público interessado em assisti-los. Falo eu que o verdadeiro cinema nacional não mudou muito; que as mesmas barreiras e obstáculos enfrentados por cineastas e profissionais do ramo no passado continuam quase intransponíveis; que o público não abandonou a mentalidade anterior, apurando e/ou diversificando seu gosto cinematográfico. Falo eu, tudo isso, em razão de Fala TU (do diretor Guilherme Coelho). Parece-me que pouco se sabe sobre esta obra. Infelizmente. Falo eu a você que Fala TU consiste em um ótimo exemplo do legítimo e bem feito cinema nacional. O rap como pano de fundo entrelaça três vidas da zona norte do Rio de Janeiro neste documentário. Fala ele sobre três pessoas e sobre suas relações com o estilo musical para destrinchar toda uma teia de situações cotidianas; um emaranhado de depoimentos que dissecam assuntos pertinentes sobre nossa sociedade. Fala ele sobre abismo social, econômico e cultural, questão racial e discriminação, violência, pobreza, miséria. Mazelas tipicamente brasileiras retratadas de forma singela, porém profunda. Fala TU é despretensioso, não prega ou doutrina. Por meio das personagens, o documentário fala e mostra, e o faz muito bem. Toda a simplicidade e sinceridade que revelam a importância dos temas se devem às três pessoas. Mas Fala TU também fala como filme. Um excelente trabalho. De apuração, produção, filmagem, e muitos outros aspectos. Um material caprichado de grande eloqüência e pertinência. Uma fita que realiza cinema de primeira. Todavia ofuscada por super-produções (algumas muito boas), nacionais inclusive, e que, como todo bom filme brasileiro, é pouco procurada. Falo eu, por fim, na tentativa de divulgar esta boa pedida. Fala TU fala a todos brasileiros. Agora que falou a mim, falo eu a você: “Fala TU”!

lalaA espera era longa. O melhor seria ouvir a sabedoria popular: sentar e esperar. No caso da Larissa, o jeito era esperar deitada, privar-se do direito de ir e vir, restringir movimentos, enclausurar-se. Junto dela, mais 1000 pessoas esperavam na fila por um transplante ósseo. Naquele ano, houve somente 2 doações. Cada doador pode beneficiar 30 pessoas, ou seja, apenas 60 pessoas foram atendidas. Nada da fila andar. Mas, chegar até ali já era uma vitória. Foi uma luta contra a desinformação e o desserviço oferecidos por aqueles que tinham por obrigação assegurar o direcionamento de Larissa em sua busca por qualidade de vida.

Portadora de Artrite Idiopática Juvenil desde os 7 anos de idade, essa grande pessoa hoje tem 32. Durante seus DOIS transplantes- precisa ser muito guerreira para passar por dois procedimentos como esse- Larissa escreveu um livro. Diário de um Transplante Ósseo- na real dois foi lançado em 2007. Foram 5 mil exemplares distribuídos gratuitamente. A empreitada contou com o apoio do Senado Federal e o lançamento se deu na Semana de Valorização da Pessoa com Deficiência.

A idéia era informar e, de lambuja, trazer, através de sua experiência, alento às pessoas que passavam pelo mesmo desafio.

Mas, a obra desta jornalista, mulher, militante, cidadã, guerreira, amiga, filha e futura mãe transcende aquele seu primeiro objetivo de denunciar, de informar e esclarecer as pessoas através de sua experiência pessoal. Ela é, hoje, um instrumento de mudança social e uma peça-chave na luta por qualidade de vida.

Quando fez seu primeiro transplante, em 2006, havia mais de 1200 pessoas na fila por osso. Hoje, são 600. A campanha surtiu efeito!

Agora, dois anos depois do primeiro lançamento, o livro ganha sua segunda edição. Desta vez, ele será vendido à preço de custo. Nada mais justo!

Saiba como adquiri-lo aqui:

Através de sua vivência, Lalá prova que ainda falta muito, mas que é possível lutar por uma vida mais saudável, justa, digna e feliz. Qualidade de vida é possível!!!

Especialmente quando temos alguém como Larissa neste mundo.

Leia o que diz a autora sobre a segunda edição de seu livro:

“Essa segunda edição é muito especial para mim. Primeiro pelos depoimentos das pessoas que já leram o livro e, a partir de então, se tornaram doadores e passaram a divulgar a causa. E, principalmente, porque, hoje, mais de 10 mil pessoas sabem que transplante de ossos existe em função do livro. Segundo, porque esses três mil exemplares novos vão pras livrarias, bancas e internet – formadores de opinião. E aí, é informar nua e cruamente”.

O musical Chicago é um dos melhores filmes hollywoodianos que já vi. Uma das cenas (dentre tantas) que eu adoro é aquela em que o advogado Billy Flint (interpretado brilhantemente por Richard Gere) manipula fantoches/jornalistas e consegue que eles publiquem somente “sua versão” dos fatos. Versão, esta, criada maquiavelicamente.

Penso logo nesta cena toda vez que vejo o circo da imprensa colocar sob os holofotes mais uma CPI aberta no Congresso Nacional após denúncias bombástica estampadas nas capas de Veja, Isto É, Época e Cia. Mesmo que a história de Chicago se passe na década de trinta nos Estados Unidos de Al Capone, a comparação não poderia ser mais atual e adequada ao contexto da mídia brasileira.

A única diferença reside no fato de que, na nossa história, fica meio difícil saber quem é o titereiro e quem é a marionete…

Mas a história está prestes a mudar. Após anos de trabalhos hercúleos e inúmeras “matérias” (Isentas? Relevantes? Éticas?), a revista Veja conseguiu seu maior triunfo: Coroou sua campanha de criminalização do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) com a criação de uma CPI para julgar as “irregularidades” do movimento.

Lamentável o desserviço dessa publicação da família Civita, dona do grupo Abril, que usa de seu poder na massa para garantir seus interesses econômicos.

Mais lamentável ainda é saber que o poder do agronegócio pode ser responsável por um possível momento histórico e inédito no Congresso. Ao contrário do final conhecido por todo o público, aposto que a CPI do MST vai contrariar as tendências e será a única que não acabará em pizza.

O ápice da campanha da Veja foi o incidente das Laranjas destruídas por integrantes do movimento. Eu só soube do ocorrido depois e, ao buscar imagens no YouTube, “banditismo do MST”,  “vandalismo” e “vagabundos do MST” que “destroem fazenda PRODUTIVA” já ditavam o tom da massa.

O episódio das Laranjas me faz lembrar aquela anedota da época do George W. Bush e sua guerra contra o “terror”…:

Dick Cheney vai avisar o Júnior de um incidente com civis… “Presidente, bombardeamos um prédio civil. 800 mulçumanos morreram e uma galinha”.

Ao que Juninho pergunta: “Mas porque uma galinha???”.

Cheney: “Viu, senhor?!?! Ninguém liga para os 800 mulçumanos!”.

A sociedade brasileira achou inadmissível a “destruição” de pés de laranjas de uma empresa privada, grande exportadora, que planta em terra PÚBLICA. A grilagem é irrelevante frente ao “assassinato” de árvores.

No entanto, essa mesma sociedade não recebe com tamanha indignação e comoção a destruição de barracos de moradores pobres que ocupam terras públicas.

Pessoas desalojadas, favelados, ah… para esses, a “justiça” agiu certo ao pedir a reintegração de posse. Afinal, eles podem viver na periferia. Porque querem insistir em morar no centro da cidade?!!?

Você já ouviu falar no caso da desocupação da Favela Real Parque? Concordaria com a reivindicação dos moradores?

Chumbo neles! Fogo nus barracu tudo!

A inversão de valores já é inerente à nossa sociedade. Mas até que ponto a falta de informação ou a informação manipulada nos impede de agir com maior discernimento?

Portanto, trago aqui uma série de links que mostram o ponto de vista do MST e dos defensores do movimento (e meu também).

Este (nota do MST),

este (Stédile em entrevista à Folha),

este (sobre cartel das laranjas),

leia este,

ainda este,

e mais este.

Meu receio é de que a mentalidade brasileira e a lógica capitalista incorram na mesma injustiça retratada na história do grande Machado de Assis:

“Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas”.

Ou seriam, as laranjas?

Eu não leio nem vejo as transmissões da grande mídia. Tenho respeito e amor ao meu bem-estar físico e mental. Neste fim de semana (estou atrasada, mas, antes tarde que…), me deparei, acidentalmente, com um suplemento “especial” do diário candango “Correio Braziliense”, entitulado Noroeste.

O jornal é ferrenho defensor do governo do Detrito Federal, encabeçado pelo ex-senador do caso da Violação do Painel do Senado, Roberto Arruda (DEMO), e seu vice, o empreiteiro Paulo Octavio.

O caderno “especialíssimo” exalta o projeto de construção do novo bairro para a classe altíssima da capital, o setor Noroeste. Em meio à polêmica de construir uma área residencial em reserva ambiental e indígena, o então eleito GDF conseguiu destravar os processos e, segundo o jornal, “A Terracap já faturou R$ 1,1 bilhão em licitação de terras. E a primeira incorporadora a lançar apartamentos vendeu 92% dos imóveis em apenas 3 dias”.

O suplemento traz argumentos extremamente favoráveis ao empreendimento. E é só. Nenhuma crítica. Ao menos nas manchetes (pois não tenho estômago para ler as matérias): “O Noroeste foi previsto pelo urbanista Lucio Costa”; “Apartamentos Verdes”; “Ecologicamente correto” e, o mais cara-dura, “Reverência ao Cerrado”.

A capa traz a foto de uma família de classe “média” alta de Brasília e esboça a felicidade do Basilian Way of Life.

Paulo Octavio é o maior especulador imobiliário de Brasília e detém o monopólio do setor na capital.

Ninguém, ao menos na grande mídia, questiona as intenções (pessoais e comerciais) do governo do DF em relação à obra e muito menos os meios utilizados por ele para garantir o empreendimento.

No ano passado, a Agência Brasil mostrou as “outras versões” desta história. Acho que “vale a pena ver de novo”:

Aqui, aqui, aqui (nesta ordem).

Parece ser de praxe (e é lamentável) que autoridades manipulem dados e se omitam quando o assunto é, digamos, desconfortável ou quando ele possa questionar a invencibilidade da imagem que têm perante a sociedade.

Há quase um mês, minha irmã seguia de Brasília a Belo Horizonte num ônibus da empresa Itapemirim. Cerca de duas horas após sair da Capital Federal, na altura de Cristalina, município goiano, cinco homens armados de espingardas e facões renderam o veículo e os passageiros. Eles foram coagidos a entregar todos os bens pessoais que levavam consigo -dinheiro, celular, câmeras fotográficas, alguns até as roupas e calçados que vestiam- e a bagagem.

Uma pequena observação pessoal: perder bens materiais parece coisa insignificante diante da experiência extremante negativa e estressante de ter armas apontadas a sua cabeça e temer por sua vida.

Assaltos como este não são novidade. Uma semana depois, eu fiz o mesmo trajeto e, quando paramos em um restaurante nas proximidades de Paracatu (Minas Gerais- próximo à divisa do estado com Goiás), conversei com a faxineira do local. De acordo com dona Luciara, há cerca de dois meses ela presenciou quando dois ônibus – um da viação Itapemirim e outro da União- pararam na lanchonete após um assalto (em datas diferentes, claro). Luciara conta que os dois ônibus foram assaltados em Goiás. Ela diz temer um assalto à lanchonete e reclama que “Paracatu está muito perigosa, quando preciso trabalhar de noite, meu marido vem me trazer”.

Resolvi, portanto, averiguar com as autoridades competentes:

1) Polícia Rodoviária Federal:
Não foi uma surpresa, no entanto, para mim, é sempre decepcionante constatar a ineficiência sendo mascarada e a negligência sendo justificada pela “hierarquização” dos problemas.

Explico-me. Entrei em contato com a PRF para levantar o número de assaltos à ônibus em rodovias federais. Queria saber quais seriam os pontos mais críticos nessa região do Entorno do Distrito Federal. Estávamos em mês de férias. Houve um aumento no número de roubos à passageiros por conta do recesso? (Ok, minha irmã foi assaltada e estou pessoalmente envolvida. Mas valia uma pauta interessante e raramente explorada pela mídia- como veremos a seguir).

A primeira reação do inspetor com quem conversei por telefone foi dizer que a Polícia Rodoviária quase nunca registra ocorrências de assaltos à ônibus nessa região, que é fato raro… parecia para mim que a PRF acreditava que esse tipo de crime era insignificante. Pergunto: insignificante para quem?

De acordo com balanço feito pela Polícia Rodoviária, no estado de Goiás foram registrados 48 acidentes nos dois primeiros dias de agosto, “resultando em 5 mortes. Do total de ocorrências, 34 foram somente nas vias estaduais” .

Não tenho dados para comparar esses dois tipos de ocorrência. Mas, o ônibus da Itapemirim tem capacidade para 42 passageiros. Segundo minha irmã, ele estava lotado.

Uma única ocorrência com mais de 40 vítimas não diz nada em comparação à 14 ocorrências registradas em dois dias e que, em sua totalidade, poderia contabilizar um número aproximado de vítimas?

A PRF sempre divulga balanço de acidentes nas estradas, especialmente após dias festivos. Os grandes vilões são sempre a imprudência e o alcoolismo dos motoristas. Algo que foge ao alcance da Polícia, mas contra o que ela diz tentar lutar através de campanhas de conscientização e, agora, com a Lei Seca.

Mas e quando o problema poderia ser algo evitado com maior rigor na fiscalização e patrulhamento de áreas críticas?

Passei uma semana tentando conseguir os dados com a PRF. Ligava todos os dias e, apesar de se mostrar prestativo, o inspetor sempre arrumava evasivas (alegando que precisava procurar esses dados e que não tinha tempo de averigua-los de pronto, quando não me transferia para outro inspetor que parecia nem existir. Ao menos, não poderia ser encontrado no número que me passou e ninguém sabia me informar onde encontrá-lo).

A PRF possui, em sua página, um link de “Estatísticas” sobre infrações e criminalidade que, além de não funcionar, possui dados referentes a 2007.

Após uma semana de insistência junto ao órgão, desisti. E surgiram duas dúvidas:

- A PRF de fato julga crimes de assaltos à ônibus em rodovias federais como ocorrências pouco importantes?
- Ou seria esse tópico um assunto desconfortável que poderia manchar a imaculada imagem de eficiência da Polícia?

As poucas informações que encontrei na internet sobre roubo à ônibus em Goiás vinham de pequenos periódicos e tinham as Polícias Civil ou Militar quase sempre como fontes.

Uma notícia me chamou a atenção: Em  fevereiro deste ano, a Polícia Civil de Catalão desmantelou uma quadrilha especializada em assaltar ônibus em Goiás. Somente este grupo, assaltou nove coletivos em dois meses. Antes de serem presos, os assaltantes haviam roubado um carro e, logo após, um ônibus da Viação Real, com 33 passageiros na mesma região em que minha irmã foi assaltada. O motorista foi ferido à tiro.

Outra notícia, mais atual, me levou a descartar minha primeira hipótese de que a PRF considera como “menores” os crimes de assalto à ônibus. Há uma semana, uma operação conjunta das Polícias Civil e Rodoviária Federal prendeu mais integrantes de uma quadrilha especializada em assalto à ônibus em Mato Grosso do Sul e Goiás. O grupo pode ser liderado por ex-policial militar.

Não compreendi o silêncio da PRF e a insistência em dizer que quase não há casos como o de minha irmã registrados.

2) Imprensa
Não me lembro de haver visto qualquer informação “negativa” sobre a PRF. Jamais. Em sua página na web claro que todas as notícias exaltam ações bem sucedidas do órgão.

No entanto, o impecável trabalho da Polícia Rodoviária Federal parece ser uma máxima também da mídia. E os assuntos que dizem respeito ao órgão nunca variam.

Em uma busca simples na Agência Brasil, da empresa pública de comunicação do governo, as notícias envolvendo a PRF diziam respeito à divulgação de bem sucedidas ações de busca e apreensão e, liderando o ranking, aos balanço sobre acidentes nas estradas e números positivos da Lei Seca e de seu mascote, o bafômetro.

A Globo também não ficou para trás na exaltação à Lei Seca.

Após o assalto ao ônibus no qual minha irmã viajava, fiquei atenta ao noticiário da Rede Globo (já que essa empresa é um dos meus favoritos exemplos de desserviço à sociedade).

Numa matéria, ao meu ver comprada, a emissora mostra como uma concessionária, com seus aparatos de última geração, busca incessantemente averiguar a origem de uma neblina em estrada de São Paulo.

Não vi nada mais sobre “estradas” ou rodovias naquela semana. No entanto, quanto à crimes, o assalto à condomínios de luxo, também em São Paulo, pareceu mobilizar a empresa. A matéria ganhou até uma “infografia” mostrando a ação dos ladrões.

No dia seguinte, o Jornal Nacional tratou do assunto.

O telejornal mostrava que a quadrilha atuava em vários estados, mas não menciona o número de vítimas. Os assaltantes agiam quando os moradores não estavam em casa. A ocorrência é alçada ao patamar de “crime da moda”… pelo repórter.

Quantas casas são assaltadas diariamente nas cidades brasileiras? Quantas pessoas são vítimas deste tipo de violência, quantas passam por traumas irreparáveis e quantas perdem a vida por causa disso? Quantos ônibus são roubados nas grandes cidades e quantas pessoas precisam lidar com esse medo diariamente, já que precisam tomar os coletivos para trabalhar e voltar para a casa? Esse tipo de roubo não é “da moda” também? Ou está banalizado demais para que a mídia e a sociedade se importem?

Em suma, minha pergunta é: quem determina que um crime é mais importante que outro? E por que hierarquizamos os tipos de crimes?

3) Itapemirim

De acordo com a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT)- órgão que autoriza a prestação de serviço de transporte rodoviário- mais de 140 milhões de pessoas, todo ano, usam o transporte rodoviário intermunicipal e internacional no Brasil.

“O grau de importância desse serviço pode ser medido quando se observa que o transporte rodoviário por ônibus é a principal modalidade na movimentação coletiva de usuários, nas viagens de âmbito interestadual e internacional. O serviço interestadual, em especial, é responsável por quase 95% do total dos deslocamentos realizados no país. Sua participação na economia brasileira é expressiva, assumindo um faturamento anual superior a R$ 2,5 bilhões na prestação dos serviços regulares (…), onde são utilizados 13.400 ônibus”.

O transporte de passageiros é de responsabilidade dos governos municipais, estaduais e federal (uma vez que o assalto ao ônibus de minha irmã ocorreu em rodovia federal, questiono a PRF).

No entanto, as empresas que transportam passageiros também devem garantir qualidade no serviço. A Itapemirim, no referido caso, agiu de acordo com a lei. Mesmo que essa lei não inclua qualquer medida que beneficie o passageiro em caso de roubo.

Porém, minha irmã buscou a Viação para mais esclarecimentos. Queria saber o que a empresa tem feito para evitar tais acontecimentos, já que esse roubo não foi um caso isolado nem inédito na história da empresa.

Um outro fato curioso chama a atenção: Naquela noite, dois ônibus da Itapemirim saíram de Brasília com direção à Belo Horizonte quase no mesmo horário. Um às 21 horas e outro às 21h15. O ônibus onde minha irmã estava foi o das 21h15. Menos de 10 minutos afastava um veículo do outro.

Havia três turistas estrangeiros no ônibus assaltado. Os três eram europeus. Pergunto: foi uma feliz coincidência e um golpe de sorte para os ladrões resolver abordar um veículo com estrangeiros (um chamariz), ou esse ônibus já estava visado? A empresa têm questionado seus próprios funcionários? Alguém de dentro da empresa ou na rodoviária de Brasília não poderia estar em conluio com assaltantes?

Além disso, não seria interessante para a segurança dos passageiros que dois ônibus que viajam quase no mesmo horário saíssem juntos, numa espécie de comboio?

Há um mês esperamos uma resposta da Itapemirim. Já entramos em contato com a empresa duas vezes neste período. Ela agiu em concordância com a lei no que se refere ao assalto, mas, ao meu ver, ficou devendo, e muito, no quesito atendimento ao cliente.

Mais uma vez, não entendo o silêncio.

Tudo começou de forma bem despretensiosa… a idéia era fechar um boletinzinho para a Radionacional, da EBC- Empresa Brasil de Comunicação, dando um panorama do Fisl, o Fórum Internacional de Sotware Livre que ocorre todo ano em Porto Alegre (e que, inclusive, eu cobri no ano passado)

Seria uma matéria bem didática, explicando o que é o software livre, o que o movimento defende e o que foi discutido no Fisl… cairíamos, portanto, no debate do projeto de lei do senador Eduardo Azeredo, do PSDB/MG que trata dos cybercrimes e que foi amplamente discutido no encontro.

A matéria cresceu quando consegui entrevistar o Azeredo, já que ele quase nunca fala à imprensa sobre isso. Tinha um trunfo em minhas mãos: o Lula havia criticado fortemente o projeto durante o Fisl, chamando-o de lei de censura. Com isso, seria até difícil não ter um pronunciamento do senador.

Fechei uma matériazinha em formato mais “especial”, mais didática para o público que não entende e/ou conhece a questão. Queria ter aprofundado mais, porém, lamentavelmente rolou até censura sofrida por uma de minhas fontes que, caso fosse ao ar, enriqueceria o debate. Política!

O material foi ao ar no jornal Repórter Brasil da Radionacional nesta segunda-feira, 13 de julho.

Aqui, publico o material mais completo, as respostas dadas pelo senador Azeredo e trechos da entrevista com o sociólogo Sérgio Amadeu, já que não tive muito espaço para isso dentro da empresa.

Sem querer tomar partido de algum dos lados, de fato, é interessante observar a falta de argumentos do senador que, ao rebater as críticas, ou ataca para defender-se ou utiliza-se, como comumente se faz, de respostas evasivas e vagas que nunca chegam a lugar algum.

Agradecimentos especiais: Yasodara Córdova, Lincoln Clarete, Fernando Ike, Emerson Luis e Walter Cruz. Pelo apoio e pela ajuda, técnica e/ou não.

Ouça:

Matéria especial sobre PL


Azeredo 01: Senador rebate críticas do presidente Lula que chamou o projeto de lei de censura


Azeredo 02: Senador contesta críticas e diz que projeto não irá controlar conteúdo


Azeredo 03: “Lei é contra criminosos, não contra pessoas de bem”


Azeredo 04: “Lei de crimes cibernéticos não pune aqueles que baixam MP3″


Azeredo 05: Senador diz que projeto foi debatido com a sociedade


Azeredo 06: “Internet não pode ser uma terra de ninguém”


Amadeu 01: Projeto de Lei interessa à indústria de Copyright, defende sociólogo Sérgio Amadeu

Amadeu 02: Sociólogo diz que provedores se tornam delatores pelo PL do senador Azeredo

Amadeu 03: Projeto quer criminalizar o compartilhamento de informações, diz sociólogo


Amadeu 04: Sociólogo Sérgio Amadeu defende Lei de Direitos na internet


Amadeu 05: “PL cria clima de insegurança na internet e prejudica projetos de inclusão digital”

osso

Já são três meses no ar, mil acessos e liderança no ranking do Google. Se você buscar informações sobre Transplante Ósseo na internet, será contemplado pelo Blog Transplante Ósseo na Real- Um diário sobre o tema, da jornalista Larissa Jansen.

O trabalho é exemplo de jornalismo social, público e cidadão. O tema é a frágil saúde pública no Brasil, seus problemas e as ações desenvolvidas para melhorá-la. O público-alvo são os deficientes que, assim como a autora, lidam com essas questões de forma ainda mais dificil. O foco é a INFORMAÇÃO, já que carecemos, e muito, dessa importante ferramenta para garantir cidadania.

Larissa explica:

“Certo dia ouvi um amigo dizendo que o grande problema da péssima divulgação do transplante de ossos no Brasil é porque quem precisa de osso não está morrendo. E, por tabela, não serve para a minha amiga imprensa fazer uma historinha novelesca, como nós, jornalistas, tanto gostamos de trabalhar. Isso mesmo: sou jornalista. Não me perguntem como consegui me formar, passar em concurso público com Artrite (leia-se sendo deficiente física)… Não faço a menor idéia. Meu amigo completou: quem precisa de um transplante ósseo está precisando de QUALIDADE DE VIDA. Apenas isso. Viver com um sorriso no rosto. E não seria morrer, viver com degeneração, perdendo osso?”

O Blog surgiu da necessidade de se garantir essa QUALIDADE DE VIDA ATRAVÉS DA INFORMAÇÃO. E, também, após ver crescer a demanda por esse tipo de trabalho.

Em 2007, a jornalista lançou o livro Diário de Um Transplante Ósseo, na Real Dois, de distribuição gratuita. O lançamento se deu na Semana de Valorização da Pessoa com Deficiência do Senado Federal e, até agora, foram distribuídos 4 mil exemplares.

Após a boa recepção do livro, vimos a necessidade de informar mais e mais e de estar mais em contato com as pessoas que precisam dessas informações e TÊM DIREITO a elas.

Digo “vimos” pois tive a honra de participar desses trabalhos, como editora do livro e como ajudante pró tempore (ou melhor, em espaças ocasiões) do blog.

Por isso, comemoro hoje, junto a Larissa e junto a milhares de cidadãos (que, agora, contam com informações de qualidade), o bom desempenho deste trabalho exemplar.

Deixo aqui meus PARABÉNS a essa minha querida amiga e meu MUITO OBRIGADA! Você não mudou o mundo como sempre sonhou, mas está mudando a vida de uma parcela da população. Está SALVANDO VIDAS! Já é um grande passo!  Um mundo melhor já já chega, graças a pessoas como você.

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