Parece ser de praxe (e é lamentável) que autoridades manipulem dados e se omitam quando o assunto é, digamos, desconfortável ou quando ele possa questionar a invencibilidade da imagem que têm perante a sociedade.
Há quase um mês, minha irmã seguia de Brasília a Belo Horizonte num ônibus da empresa Itapemirim. Cerca de duas horas após sair da Capital Federal, na altura de Cristalina, município goiano, cinco homens armados de espingardas e facões renderam o veículo e os passageiros. Eles foram coagidos a entregar todos os bens pessoais que levavam consigo -dinheiro, celular, câmeras fotográficas, alguns até as roupas e calçados que vestiam- e a bagagem.
Uma pequena observação pessoal: perder bens materiais parece coisa insignificante diante da experiência extremante negativa e estressante de ter armas apontadas a sua cabeça e temer por sua vida.
Assaltos como este não são novidade. Uma semana depois, eu fiz o mesmo trajeto e, quando paramos em um restaurante nas proximidades de Paracatu (Minas Gerais- próximo à divisa do estado com Goiás), conversei com a faxineira do local. De acordo com dona Luciara, há cerca de dois meses ela presenciou quando dois ônibus – um da viação Itapemirim e outro da União- pararam na lanchonete após um assalto (em datas diferentes, claro). Luciara conta que os dois ônibus foram assaltados em Goiás. Ela diz temer um assalto à lanchonete e reclama que “Paracatu está muito perigosa, quando preciso trabalhar de noite, meu marido vem me trazer”.
Resolvi, portanto, averiguar com as autoridades competentes:
1) Polícia Rodoviária Federal:
Não foi uma surpresa, no entanto, para mim, é sempre decepcionante constatar a ineficiência sendo mascarada e a negligência sendo justificada pela “hierarquização” dos problemas.
Explico-me. Entrei em contato com a PRF para levantar o número de assaltos à ônibus em rodovias federais. Queria saber quais seriam os pontos mais críticos nessa região do Entorno do Distrito Federal. Estávamos em mês de férias. Houve um aumento no número de roubos à passageiros por conta do recesso? (Ok, minha irmã foi assaltada e estou pessoalmente envolvida. Mas valia uma pauta interessante e raramente explorada pela mídia- como veremos a seguir).
A primeira reação do inspetor com quem conversei por telefone foi dizer que a Polícia Rodoviária quase nunca registra ocorrências de assaltos à ônibus nessa região, que é fato raro… parecia para mim que a PRF acreditava que esse tipo de crime era insignificante. Pergunto: insignificante para quem?
De acordo com balanço feito pela Polícia Rodoviária, no estado de Goiás foram registrados 48 acidentes nos dois primeiros dias de agosto, “resultando em 5 mortes. Do total de ocorrências, 34 foram somente nas vias estaduais” .
Não tenho dados para comparar esses dois tipos de ocorrência. Mas, o ônibus da Itapemirim tem capacidade para 42 passageiros. Segundo minha irmã, ele estava lotado.
Uma única ocorrência com mais de 40 vítimas não diz nada em comparação à 14 ocorrências registradas em dois dias e que, em sua totalidade, poderia contabilizar um número aproximado de vítimas?
A PRF sempre divulga balanço de acidentes nas estradas, especialmente após dias festivos. Os grandes vilões são sempre a imprudência e o alcoolismo dos motoristas. Algo que foge ao alcance da Polícia, mas contra o que ela diz tentar lutar através de campanhas de conscientização e, agora, com a Lei Seca.
Mas e quando o problema poderia ser algo evitado com maior rigor na fiscalização e patrulhamento de áreas críticas?
Passei uma semana tentando conseguir os dados com a PRF. Ligava todos os dias e, apesar de se mostrar prestativo, o inspetor sempre arrumava evasivas (alegando que precisava procurar esses dados e que não tinha tempo de averigua-los de pronto, quando não me transferia para outro inspetor que parecia nem existir. Ao menos, não poderia ser encontrado no número que me passou e ninguém sabia me informar onde encontrá-lo).
A PRF possui, em sua página, um link de “Estatísticas” sobre infrações e criminalidade que, além de não funcionar, possui dados referentes a 2007.
Após uma semana de insistência junto ao órgão, desisti. E surgiram duas dúvidas:
- A PRF de fato julga crimes de assaltos à ônibus em rodovias federais como ocorrências pouco importantes?
- Ou seria esse tópico um assunto desconfortável que poderia manchar a imaculada imagem de eficiência da Polícia?
As poucas informações que encontrei na internet sobre roubo à ônibus em Goiás vinham de pequenos periódicos e tinham as Polícias Civil ou Militar quase sempre como fontes.
Uma notícia me chamou a atenção: Em fevereiro deste ano, a Polícia Civil de Catalão desmantelou uma quadrilha especializada em assaltar ônibus em Goiás. Somente este grupo, assaltou nove coletivos em dois meses. Antes de serem presos, os assaltantes haviam roubado um carro e, logo após, um ônibus da Viação Real, com 33 passageiros na mesma região em que minha irmã foi assaltada. O motorista foi ferido à tiro.
Outra notícia, mais atual, me levou a descartar minha primeira hipótese de que a PRF considera como “menores” os crimes de assalto à ônibus. Há uma semana, uma operação conjunta das Polícias Civil e Rodoviária Federal prendeu mais integrantes de uma quadrilha especializada em assalto à ônibus em Mato Grosso do Sul e Goiás. O grupo pode ser liderado por ex-policial militar.
Não compreendi o silêncio da PRF e a insistência em dizer que quase não há casos como o de minha irmã registrados.
2) Imprensa
Não me lembro de haver visto qualquer informação “negativa” sobre a PRF. Jamais. Em sua página na web claro que todas as notícias exaltam ações bem sucedidas do órgão.
No entanto, o impecável trabalho da Polícia Rodoviária Federal parece ser uma máxima também da mídia. E os assuntos que dizem respeito ao órgão nunca variam.
Em uma busca simples na Agência Brasil, da empresa pública de comunicação do governo, as notícias envolvendo a PRF diziam respeito à divulgação de bem sucedidas ações de busca e apreensão e, liderando o ranking, aos balanço sobre acidentes nas estradas e números positivos da Lei Seca e de seu mascote, o bafômetro.
A Globo também não ficou para trás na exaltação à Lei Seca.
Após o assalto ao ônibus no qual minha irmã viajava, fiquei atenta ao noticiário da Rede Globo (já que essa empresa é um dos meus favoritos exemplos de desserviço à sociedade).
Numa matéria, ao meu ver comprada, a emissora mostra como uma concessionária, com seus aparatos de última geração, busca incessantemente averiguar a origem de uma neblina em estrada de São Paulo.
Não vi nada mais sobre “estradas” ou rodovias naquela semana. No entanto, quanto à crimes, o assalto à condomínios de luxo, também em São Paulo, pareceu mobilizar a empresa. A matéria ganhou até uma “infografia” mostrando a ação dos ladrões.
No dia seguinte, o Jornal Nacional tratou do assunto.
O telejornal mostrava que a quadrilha atuava em vários estados, mas não menciona o número de vítimas. Os assaltantes agiam quando os moradores não estavam em casa. A ocorrência é alçada ao patamar de “crime da moda”… pelo repórter.
Quantas casas são assaltadas diariamente nas cidades brasileiras? Quantas pessoas são vítimas deste tipo de violência, quantas passam por traumas irreparáveis e quantas perdem a vida por causa disso? Quantos ônibus são roubados nas grandes cidades e quantas pessoas precisam lidar com esse medo diariamente, já que precisam tomar os coletivos para trabalhar e voltar para a casa? Esse tipo de roubo não é “da moda” também? Ou está banalizado demais para que a mídia e a sociedade se importem?
Em suma, minha pergunta é: quem determina que um crime é mais importante que outro? E por que hierarquizamos os tipos de crimes?
3) Itapemirim
De acordo com a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT)- órgão que autoriza a prestação de serviço de transporte rodoviário- mais de 140 milhões de pessoas, todo ano, usam o transporte rodoviário intermunicipal e internacional no Brasil.
“O grau de importância desse serviço pode ser medido quando se observa que o transporte rodoviário por ônibus é a principal modalidade na movimentação coletiva de usuários, nas viagens de âmbito interestadual e internacional. O serviço interestadual, em especial, é responsável por quase 95% do total dos deslocamentos realizados no país. Sua participação na economia brasileira é expressiva, assumindo um faturamento anual superior a R$ 2,5 bilhões na prestação dos serviços regulares (…), onde são utilizados 13.400 ônibus”.
O transporte de passageiros é de responsabilidade dos governos municipais, estaduais e federal (uma vez que o assalto ao ônibus de minha irmã ocorreu em rodovia federal, questiono a PRF).
No entanto, as empresas que transportam passageiros também devem garantir qualidade no serviço. A Itapemirim, no referido caso, agiu de acordo com a lei. Mesmo que essa lei não inclua qualquer medida que beneficie o passageiro em caso de roubo.
Porém, minha irmã buscou a Viação para mais esclarecimentos. Queria saber o que a empresa tem feito para evitar tais acontecimentos, já que esse roubo não foi um caso isolado nem inédito na história da empresa.
Um outro fato curioso chama a atenção: Naquela noite, dois ônibus da Itapemirim saíram de Brasília com direção à Belo Horizonte quase no mesmo horário. Um às 21 horas e outro às 21h15. O ônibus onde minha irmã estava foi o das 21h15. Menos de 10 minutos afastava um veículo do outro.
Havia três turistas estrangeiros no ônibus assaltado. Os três eram europeus. Pergunto: foi uma feliz coincidência e um golpe de sorte para os ladrões resolver abordar um veículo com estrangeiros (um chamariz), ou esse ônibus já estava visado? A empresa têm questionado seus próprios funcionários? Alguém de dentro da empresa ou na rodoviária de Brasília não poderia estar em conluio com assaltantes?
Além disso, não seria interessante para a segurança dos passageiros que dois ônibus que viajam quase no mesmo horário saíssem juntos, numa espécie de comboio?
Há um mês esperamos uma resposta da Itapemirim. Já entramos em contato com a empresa duas vezes neste período. Ela agiu em concordância com a lei no que se refere ao assalto, mas, ao meu ver, ficou devendo, e muito, no quesito atendimento ao cliente.
Mais uma vez, não entendo o silêncio.